Segundo a presciência de Deus — Falando à maneira dos homens. A rigor, não há presciência em Deus, assim como não há conhecimento posterior: todas as coisas lhe são conhecidas como presentes, de eternidade a eternidade. Trata-se, portanto, apenas de uma condescendência divina à nossa capacidade limitada. Eleitos — Pelo amor gratuito e pelo poder onipotente de Deus, tirados do mundo, separados dele. Eleição, no sentido bíblico, é Deus fazer qualquer coisa em que nosso mérito ou nossa força não têm parte alguma. A verdadeira predestinação, ou determinação prévia de Deus, é esta: 1. Quem crer será salvo da culpa e do poder do pecado. 2. Quem perseverar até o fim será salvo eternamente. 3. Os que recebem o precioso dom da fé tornam-se, por meio dele, filhos de Deus; e, sendo filhos, receberão o Espírito de santidade para andarem como Cristo também andou. Em cada parte desse decreto de Deus, promessa e dever caminham de mãos dadas. Tudo é dom gratuito; e, no entanto, tal é o dom, que o desfecho final depende da nossa obediência futura ao chamado celestial. Mas de outra predestinação além desta — seja para a vida, seja para a morte eterna — a Escritura nada sabe. Além disso, ela é: 1. Cruel acepção de pessoas: uma consideração injusta de um e um desprezo injusto de outro; mera parcialidade de criatura, e não justiça infinita. 2. Não é doutrina clara da Escritura, se verdadeira fosse; antes, é incompatível com a Palavra escrita expressa, que fala das ofertas universais da graça de Deus, sendo gerais os seus convites, promessas e advertências. 3. Somos ordenados a escolher a vida, e repreendidos por não o fazer. 4. É incompatível com um estado de provação naqueles que necessariamente serão salvos ou necessariamente perdidos. 5. É de consequência fatal, pois todos os homens estão prontos, pelos motivos mais frágeis, a se imaginarem do número dos eleitos. Mas a doutrina da predestinação mudou inteiramente do que era antes. Agora ela não implica fé, nem paz, nem pureza. É algo que dispensa todas essas coisas. A fé já não é, segundo o esquema predestinariano moderno, uma 'prova' divina 'das coisas que não se veem', operada na alma pelo poder imediato do Espírito Santo; não é prova alguma, mas mera noção. Tampouco a fé continua sendo meio de santidade; é algo que a dispensa. Cristo já não é salvador do pecado, mas defesa e acobertador dele. Já não é fonte de vida espiritual na alma dos crentes; deixa seus eleitos interiormente secos e exteriormente infrutíferos, e é reduzido a pouco mais que um refúgio contra a imagem do que é celestial — sim, contra a justiça, a paz e a alegria no Espírito Santo. Na santificação do Espírito — Pelas influências renovadoras e purificadoras do seu Espírito sobre a alma deles. Para a obediência — Para movê-los e capacitá-los a se entregarem a toda santa obediência, cujo fundamento é a aspersão do sangue de Jesus Cristo — O sangue expiatório de Cristo, tipificado pela aspersão do sangue dos sacrifícios sob a lei; em alusão a isso é chamado 'o sangue da aspersão'.