Notas de John Wesley sobre a Bíblia Comentários bíblicos em português atual

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Apocalipse 4

Referências: 4.14.24.34.44.54.64.74.84.9-104.11

Introdução ao capítulo

Entramos agora na profecia principal. Toda a Revelação pode ser assim dividida, segundo Wesley: os capítulos 1 a 3 contêm a introdução; o 4 e o 5, a proposição; os capítulos 6 a 9 descrevem coisas já cumpridas; do 10 ao 14, coisas que se estão cumprindo; do 15 ao 19, coisas que em breve se cumpririam; os capítulos 20 a 22, coisas a maior distância. [Nota editorial: esse esquema cronológico reflete a influência de Bengel sobre Wesley. O leitor amilenista ou preterista parcial não precisa adotá-lo para aproveitar as notas: o valor delas está na exegese versículo a versículo e na aplicação espiritual, que Wesley mesmo considera o essencial.]

Apocalipse 4.1 §

Nota de John Wesley

Depois destas coisas — Como se dissesse: depois que escrevi estas cartas ditadas pela boca do Senhor. Pela partícula 'e' costumam ligar-se as várias partes desta profecia; pela expressão 'depois destas coisas' elas se distinguem umas das outras (Ap 7.9; 19.1); por 'e depois destas coisas' distinguem-se e ao mesmo tempo se ligam (Ap 7.1; 15.5; 18.1). João sempre via e ouvia, e imediatamente escrevia uma parte após outra; e uma parte é constantemente dividida da outra por uma dessas expressões. Vi — Aqui começa o relato da visão principal, que é contínua do princípio ao fim, como se vê pelo trono e por aquele que nele se assenta, pelo Cordeiro (que até aqui aparecera em forma de homem), pelos quatro seres viventes e pelos vinte e quatro anciãos, representados deste ponto até o fim. Uma porta aberta no céu — Várias dessas aberturas são mencionadas sucessivamente: aqui, uma porta; depois, 'o templo de Deus no céu' (Ap 11.19; 15.5); por fim, o próprio 'céu' (Ap 19.11). Por cada uma delas João ganha uma perspectiva nova e mais ampla. E a primeira voz que ouvi — A de Cristo; depois ouviu as vozes de muitos outros. Disse: Sobe aqui — Não em corpo, mas em espírito; o que imediatamente se fez.

Temas: visaorevelacao

Apocalipse 4.2 §

Nota de John Wesley

E imediatamente achei-me em espírito — Em grau ainda mais alto que antes (Ap 1.10). E eis que um trono estava posto no céu — João deve escrever 'as coisas que hão de ser'; e, para isso, aqui lhe é mostrado, de maneira celestial, como tudo o que 'há de ser', bom ou mau, flui de fontes invisíveis, e como, depois de feito no teatro visível do mundo e da igreja, reflui ao mundo invisível como ao seu próprio e final destino. Aqui os comentaristas se dividem: uns procedem teologicamente, outros historicamente — quando o caminho certo é unir ambos. A corte do céu é aqui aberta, e o trono de Deus é como que o centro do qual tudo no mundo visível procede e ao qual tudo retorna. Aqui também se revela o reino de Satanás; e daqui podemos extrair as coisas mais importantes da mais abrangente e, ao mesmo tempo, mais secreta história do reino do inferno e do céu. Mas devemos contentar-nos em saber apenas o que é expressamente revelado neste livro. Ele descreve, não meramente o bem ou o mal que sucessivamente se realiza na terra, mas como cada um brota do reino da luz ou das trevas e tende continuamente à fonte de onde brotou; de modo que ninguém pode explicar tudo o que nele se contém apenas pela história da igreja militante. E, contudo, as histórias das eras passadas têm sua utilidade, pois este livro é propriamente profético. Quanto mais observamos, pois, o seu cumprimento, tanto mais podemos louvar a Deus em sua verdade, sabedoria, justiça e poder onipotente, e aprender a ajustar-nos ao tempo, segundo as notáveis instruções contidas na profecia. E um estava assentado no trono — Como rei, governador e juiz. Descreve-se aqui Deus, o Todo-Poderoso, o Pai celestial, em sua majestade, glória e domínio.

Temas: soberaniatrono

Apocalipse 4.3 §

Nota de John Wesley

E o que estava assentado era, na aparência — Resplandecia com brilho visível, como o de pedras preciosas cintilantes, como as que outrora estavam no peitoral do sumo sacerdote e as que são postas como fundamentos da Nova Jerusalém (Ap 21.19-20). Se há algo emblemático nas cores dessas pedras, possivelmente o jaspe, transparente e de um branco cintilante entremeado de belas cores, seja símbolo da pureza de Deus, com várias outras perfeições que brilham em todas as suas dispensações; a pedra sárdio, cor de sangue, emblema da sua justiça e da vingança que estava prestes a executar sobre seus inimigos; a esmeralda, verde, penhor de favor para com os bons; o arco-íris, da aliança eterna (Gn 9.9). E, estando este ao redor de toda a largura do trono, fixava a distância dos que se postavam ou assentavam ao seu redor.

Apocalipse 4.4 §

Nota de John Wesley

E ao redor do trono — Em círculo, há vinte e quatro tronos, e nos tronos vinte e quatro anciãos — Os mais santos de todas as eras anteriores (Is 24.23; Hb 12.1), representando todo o corpo dos santos. Assentados — Em geral; mas prostrando-se quando adoram. Vestidos de vestes brancas — Isto e as suas coroas de ouro mostram que já haviam terminado a carreira e tomado seu lugar entre os cidadãos do céu. Nunca são chamados 'almas'; donde é provável que já tivessem corpos glorificados (cf. Mt 27.52).

Temas: ceusantos

Apocalipse 4.5 §

Nota de John Wesley

E do trono saem relâmpagos — Que afetam a vista. Vozes — Que afetam o ouvido. Trovões — Que fazem tremer o corpo inteiro. Os homens fracos acham tudo isso terrível; mas para os habitantes do céu é pura fonte de alegria e prazer, mesclada de reverência à Majestade divina. Até para os santos na terra essas coisas trazem luz e proteção; mas para os seus inimigos, terror e destruição.

Apocalipse 4.6 §

Nota de John Wesley

E diante do trono há um mar como de vidro, semelhante ao cristal — Largo e profundo, puro e claro, transparente e tranquilo. Tanto as 'sete lâmpadas de fogo' quanto este mar estão diante do trono, e ambos podem significar 'os sete espíritos de Deus', o Espírito Santo, cujos poderes e operações são frequentemente representados sob o emblema do fogo e da água. Lemos de novo, em Ap 15.2, de 'um mar como de vidro', onde não se mencionam as 'sete lâmpadas de fogo', mas, ao contrário, o próprio mar está 'misturado com fogo'. Lemos também, em Ap 22.1, de 'um rio de água da vida, claro como cristal'. Ora, o mar diante do trono e o rio que sai do trono podem significar o mesmo: o Espírito de Deus. E no meio do trono — Quanto à sua altura. Ao redor do trono — Isto é, para os quatro lados: oriente, ocidente, norte e sul. Quatro seres viventes — Não 'bestas' nem 'animais'. Parecem tomados dos querubins das visões de Isaías e Ezequiel e do santo dos santos. São, sem dúvida, alguns dos principais poderes do céu; mas de que ordem, não é fácil determinar. É bem provável que os vinte e quatro anciãos representem a igreja judaica — suas harpas parecem indicar que pertenceram ao antigo serviço do tabernáculo, onde eram usadas. Sendo assim, os seres viventes podem representar a igreja cristã. Seu número também é simbólico de universalidade e concorda com a dispensação do evangelho, que se estendeu a todas as nações debaixo do céu. E o 'cântico novo' que todos cantam — 'nos redimiste de toda tribo, e língua, e povo, e nação' (Ap 5.9) — não poderia convir à igreja judaica sem a cristã. O primeiro ser vivente era semelhante a um leão — Significando coragem destemida. O segundo, semelhante a um novilho — Ou boi (Ez 1.10), significando paciência incansável. O terceiro, com rosto de homem — Significando prudência e compaixão. O quarto, semelhante a uma águia — Significando atividade e vigor. Cheios de olhos — Denotando sabedoria e conhecimento. Na frente — Para ver a face do que está assentado no trono. E atrás — Para ver o que se faz entre as criaturas.

Apocalipse 4.7 §

Nota de John Wesley

E o primeiro — Tais eram os quatro querubins de Ezequiel, que sustentavam o trono móvel de Deus; ao passo que cada um dos que cobriam o propiciatório no santo dos santos tinha todas as quatro faces — donde um grande homem recente supõe que eram emblemáticos da Trindade e da encarnação da segunda Pessoa. Uma águia voando — Isto é, com as asas estendidas.

Apocalipse 4.8 §

Nota de John Wesley

Cada um deles tem seis asas — Como cada um dos serafins na visão de Isaías. 'Com duas cobria o rosto', em sinal de humildade e reverência; 'com duas, os pés', talvez em sinal de prontidão e diligência para executar as comissões divinas. Ao redor e por dentro estão cheios de olhos: ao redor, para ver tudo o que está mais longe do trono do que eles mesmos; por dentro, na parte interior do círculo que formam entre si. Primeiro olham do centro para a circunferência, depois da circunferência para o centro. E não descansam — Ó feliz inquietude! Dia e noite — Como falamos na terra; mas não há noite no céu. E dizem: Santo, santo, santo — É o Deus trino. Há no original duas palavras bem diferentes que traduzimos por 'santo': uma significa propriamente 'misericordioso'; a outra, que aqui ocorre, implica muito mais. Esta santidade é a suma de todo louvor dado ao Criador todo-poderoso por tudo o que ele faz e revela acerca de si, até que o cântico novo traga nova matéria de glória. A palavra significa propriamente 'separado', tanto no hebraico quanto em outras línguas. E, quando Deus é chamado santo, denota aquela excelência que é inteiramente peculiar a ele — a glória que flui de todos os seus atributos conjuntos, resplandecendo de todas as suas obras e ofuscando tudo o mais, pela qual ele é e eternamente permanece, de maneira incompreensível, separado e distante não só de tudo o que é impuro, mas de tudo o que é criado. Deus é separado de todas as coisas: ele é e opera de si mesmo, fora de si, em si, por si e para si. Portanto, ele é o primeiro e o último, o único e o Eterno, vivente e feliz, sem fim e imutável, todo-poderoso, onisciente, sábio e verdadeiro, justo e fiel, gracioso e misericordioso. Daí que 'santo' e 'santidade' signifiquem o mesmo que 'Deus' e 'divindade'; e, como dizemos de um rei 'Sua Majestade', assim a Escritura diz de Deus 'Sua Santidade' (Hb 12.10). O Espírito Santo é o Espírito de Deus. Quando se fala de Deus, ele é muitas vezes chamado 'o Santo'; e, como Deus jura pelo seu nome, também jura pela sua santidade, isto é, por si mesmo. Esta santidade é muitas vezes chamada glória; e muitas vezes a sua santidade e a sua glória são celebradas juntas (Lv 10.3; Is 6.3). Pois a santidade é glória coberta, e a glória é santidade descoberta. A Escritura fala abundantemente da santidade e glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo; e com isso o mistério da Santa Trindade é eminentemente confirmado. Chama-se santo também o que lhe é consagrado e para esse fim separado das demais coisas, e aquilo em que podemos ser semelhantes a Deus ou unidos a ele. No hino semelhante a este registrado por Isaías (Is 6.3), acrescenta-se: 'Toda a terra está cheia da sua glória'; mas isso é adiado, na Revelação, até que a glória do Senhor, destruídos os seus inimigos, encha a terra.

Temas: trindadesantidade de deusadoracao

Apocalipse 4.9-10 §

Nota de John Wesley

E quando os seres viventes dão glória — os anciãos se prostram — Isto é, todas as vezes que os seres viventes dão glória, imediatamente os anciãos se prostram. A expressão implica que o faziam no mesmo instante, e que ambos o faziam com frequência. Os seres viventes não dizem diretamente 'Santo, santo, santo és tu', mas apenas se inclinam um pouco, em profunda reverência, e dizem: 'Santo, santo, santo é o Senhor'. Mas os anciãos, quando prostrados, podem dizer: 'Digno és tu, Senhor nosso Deus'.

Apocalipse 4.11 §

Nota de John Wesley

Digno és tu de receber — Isso ele recebe não somente quando é assim louvado, mas também quando destrói os seus inimigos e de novo se glorifica. A glória, e a honra, e o poder — Respondendo ao triplo 'santo' dos seres viventes (v. 9). Pois tu criaste todas as coisas — A criação é o fundamento de todas as obras de Deus; portanto, por ela, como pelas suas outras obras, será louvado por toda a eternidade. E pela tua vontade elas existiram — Começaram a ser. É à vontade livre, graciosa e poderosamente operante daquele que de nada pode necessitar que todas as coisas devem a sua primeira existência. E foram criadas — Isto é, continuam existindo desde que foram criadas.

Temas: criacaoadoracao

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